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Virei PJ: quanto guardar por mês (férias, 13º e FGTS agora são com você)

Como PJ, ninguém guarda o seu 13º, as suas férias nem o seu FGTS. Podem ser até 29,9% da sua renda. Veja a conta completa, a ordem do que guardar primeiro e como montar isso sem planilha.

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Marcelo Miguel
15 de agosto de 2026 · 10 min de leitura
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Dezembro chega. Os grupos da empresa começam a falar em ceia, presente, viagem de fim de ano. E aí você cai em si: como PJ você não tem mais 13º salário.

E não é só o 13º — em janeiro, quando você tirar duas semanas de folga, não vem salário de férias antecipado, nem o 1/3 a mais pra dar aquela força na viagem. Tem contrato PJ ainda que nem paga o período descansado, ou seja, não trabalhou, não recebeu.

E se decidirem encerrar o contrato de prestação de serviço com você, não tem FGTS pra sacar, não tem multa de 40%, não tem seguro-desemprego. Nada disso some por maldade de ninguém: some porque essas coisas eram do contrato CLT, e você agora é um PJ (Você S/A?).

Eu escrevi aqui no blog um guia inteiro sobre como decidir entre CLT e PJ, com uma calculadora que responde se a proposta compensa. Este texto é sobre a pergunta seguinte — a que aparece no dia seguinte ao “sim”, e sobre a qual quase ninguém escreve: e agora, quanto eu preciso guardar todo mês?

Quanto guardar por mês sendo PJ? A resposta curta

Entre 8% e 29,9% da sua renda. É o que a CLT separava por você, todo mês, sem você ver:

Se seu contrato PJ remunerar as férias e/ou décimo terceiro, você está numa situação mais tranquila — e a conta muda mais do que parece. Quem tem férias remuneradas não para de faturar pra descansar: recebe nos 12 meses, e aí o 13º volta a ser 8,3% e o fundo de garantia, os 8% redondos do holerite. Quem não tem recebe 11 vezes no ano e precisa dividir tudo por onze — é daí que saem os 12,1%, 9,1% e 8,7% acima. As metas do fim do ano são as mesmas nos dois casos; o que muda é em quantas vezes você junta.

E isso é só a parte de reserva. Antes dela vêm as contas que vencem todo mês — imposto (DAS/MEI), INSS e contador —, que não são poupança nenhuma: são despesa, e são as únicas que cobram multa se você atrasar.

Se você fatura R$ 10.000 e a sua renda de fato é R$ 8.492 depois dos impostos, os três fundos pedem R$ 2.542 por mês. No fim do ciclo, são quase R$ 28.000 que alguém guardava por você e agora não guarda ninguém.

Por que ninguém te avisou: o RH era o seu tesoureiro

Vale entender o mecanismo, porque ele explica por que a conta pega tanta gente de surpresa.

Como CLT, uma parte do seu salário nunca passava pela sua mão. Ela era retida no caminho e devolvida depois, em datas fixas: um pedaço voltava em dezembro (13º), outro voltava quando você tirava férias (com um terço a mais por cima), e outro ficava numa conta que só abria na demissão ou em outros eventos previstos em lei (FGTS). Você não decidia nada disso. Não precisava de disciplina. Alguém guardava por você — e isso para a maioria das pessoas é bom.

Quando você vira PJ, esse dinheiro não deixou de existir. Ele passou a cair inteiro na sua conta, todo mês, misturado com o resto. O problema não é que ele sumiu: é que ele passou a parecer disponível, quando na verdade deveria ter o mesmo destino.

É por isso que o primeiro mês de PJ dá aquela sensação de riqueza súbita, e o décimo segundo dá aflição. Não é descontrole. É um dinheiro que tinha um dono no calendário e passou a não ter.

E, só pra dar tamanho ao grupo de que estamos falando: o IBGE contou 26,1 milhões de trabalhadores por conta própria no Brasil no trimestre de abril a junho de 2026, contra 39,4 milhões de empregados no setor privado com carteira assinada (PNAD Contínua, divulgada em 30/07/2026). Nem todo mundo por conta própria é PJ com CNPJ — a conta inclui informais sem empresa nenhuma. Mas a proporção dá o tamanho do grupo: são dois trabalhadores por conta própria para cada três com carteira assinada. E praticamente todo material de finanças pessoais foi escrito para o segundo grupo.

Os três fundos, um por direito

Repare que são três fundos separados, não um pacote. Isso importa mais do que parece, e a razão é prática: existe contrato PJ que paga 13º, e existe contrato que paga férias remuneradas. Se o seu paga um deles, esse dinheiro você não precisa guardar — e juntar tudo numa provisão única faria você separar 29,9% quando poderia separar apenas 8%.

FundoPor mêsNo cicloDe onde vem o número
Minhas férias12,1% da renda1,33 × a sua renda mensalo mês parado + o terço constitucional, em 11 depósitos
Meu 13º9,1% da renda1 × a sua renda mensalo 13º dividido pelos 11 meses em que você fatura
Meu Fundo de Garantia8,7% da renda0,96 × a sua renda mensalos 8% do empregador, feitos em 11 meses

Numa renda redonda de R$ 10.000 por mês, para fazer de cabeça: R$ 1.212 de férias + R$ 909 de 13º + R$ 873 de fundo de garantia = R$ 2.994 por mês.

E tem uma diferença de natureza entre eles que muda como você usa cada um:

A conta completa: de R$ 10.000 faturados, quanto é pra viver?

Aqui está o retrato inteiro, que é a parte que quase nenhuma planilha de PJ mostra junta. O caso: alguém que fatura R$ 10.000 por mês, no Simples Nacional a 6%, com pró-labore de R$ 2.800 e contador de R$ 600.

(O pró-labore de R$ 2.800 não é aleatório: são 28% do faturamento, o piso do Fator R — abaixo dele, muitas atividades de serviço caem no Anexo V, onde a alíquota parte de cerca de 15,5% em vez de 6%. Qual é o seu anexo, só o seu contador confirma; a diferença entre os dois é maior que tudo o mais nesta conta.)

Primeiro, o que vence todo mês:

Obrigações PJPor mês
Impostos e DAS (6% do faturamento)R$ 600,00
INSS (11% sobre o pró-labore de R$ 2.800)R$ 308,00
ContadorR$ 600,00
TotalR$ 1.508,00

Sobram R$ 8.492 — essa é a sua renda de verdade, e é sobre ela que os 29,9% incidem.

Depois, o que você guarda pra manter a paridade com a CLT:

Reservas PJPor mês
Minhas férias (12,1%)R$ 1.029,33
Meu 13º (9,1%)R$ 772,00
Meu Fundo de Garantia (8,7%)R$ 741,12
TotalR$ 2.542,45

O retrato do mês, então, é este:

Você faturouR$ 10.000,00
Comprometido (obrigações + reservas)R$ 4.050,45
Disponível — o que é pra viverR$ 5.949,55

Quase 60% do que entrou. Os outros R$ 4.050 por mês — R$ 48.605 por ano — continuam sendo seus: só que já têm destino, o seu futuro.

Esse é o número que muda a conversa. Não porque seja ruim, mas porque é o número certo pra decidir qualquer coisa: quanto você pode pagar de aluguel, quanto cabe de parcela, se aquela proposta de aumento é aumento mesmo. Quem usa o faturamento como referência decide a vida com um número 60% verdadeiro.

E se não der pra guardar tudo de uma vez?

Quase nunca dá — e a saída não é desistir dos 29,9%, é ter uma ordem. Esta:

  1. O que tem multa se atrasar — DAS, Simples, INSS. Atrasar imposto é a única linha da lista que cobra juro contra você.
  2. A reserva de emergência — o seu colchão. Vem antes dos fundos porque é o que impede uma emergência de virar dívida no cartão.
  3. Minhas férias — sem esse dinheiro você literalmente não consegue parar de faturar.
  4. Meu 13º
  5. Meu Fundo de Garantia

A lógica da ordem é uma só: perder o prazo do imposto dói amanhã; não ter fundo de garantia dói em dez anos. Comece por cima, e desça conforme sobrar.

A sua reserva de emergência precisa ser maior. Bem maior.

Esse é o ponto que mais escapa de quem acabou de virar PJ, e ele não é opinião — é aritmética de risco.

Quando um CLT perde o emprego, três coisas amortecem a queda: o aviso prévio (um mês de salário, no mínimo), o FGTS com a multa de 40% e o seguro-desemprego. Quando um contrato PJ acaba, acaba: o último pagamento é o último pagamento.

Por isso a base que eu recomendo muda de patamar — 9 meses de gastos necessários para PJ e autônomos, contra 6 para quem é CLT. Não é regra de lei nenhuma: é o tamanho da rede que sumiu. E repare no denominador: a conta é sobre gastos necessários (aluguel, mercado, luz, remédio, escola), nunca sobre o faturamento. Isso costuma deixar a meta bem menor — e bem mais possível — do que os “nove meses de salário” que a frase sugere. Se quiser fazer a sua com calma, eu montei uma calculadora gratuita pra isso — ela abre no meu site pessoal quando você deixa o e-mail —, e o guia completo da reserva explica cada escolha.

”Mas esse dinheiro rende mais na minha mão”

Essa é, de longe, a objeção mais curtida nos comentários do meu vídeo de CLT × PJ — e ela está certa. A Lei 8.036/1990 manda corrigir as contas do FGTS pelos mesmos parâmetros da poupança mais 3% ao ano (há ainda uma distribuição de resultados nos anos em que o fundo tem lucro, mas ela não muda a ordem de grandeza). O mesmo dinheiro num título público, com a Selic onde está, rende bastante mais. Quem consegue guardar por conta própria termina dez anos à frente de quem deixou na Caixa.

Só que a frase tem uma condição embutida que costuma passar despercebida: “na sua mão” só rende mais se ele estiver, de fato, na sua mão. O FGTS tinha um defeito que era também a sua maior qualidade — você não conseguia gastar. Trocar um rendimento baixo com disciplina forçada por um rendimento alto com disciplina voluntária só é um bom negócio se a disciplina existir.

É exatamente por isso que a resposta não é “não guarde”, é “guarde num lugar que renda”. O objetivo dos 29,9% não é imitar a Caixa; é ter o dinheiro separado, rendendo, e com nome. (Vou fazer a conta completa dos dez anos, com números, num vídeo próprio — é assunto que merece o tempo dele.)

Uma ressalva que vale junto, porque quase sempre aparece na mesma conversa: INSS não é investimento, é seguro. Ele paga auxílio-doença, invalidez, pensão por morte e salário-maternidade. Recolher o mínimo é uma escolha legítima, mas ela compra cobertura mínima — e o que substitui a diferença é reserva mais seguro privado, não rendimento.

A multa de 40% não entra — e isso é decisão, não esquecimento

Se você já usou uma calculadora de CLT × PJ, viu a multa de 40% do FGTS entrar na conta, como provisão de 3,2% ao mês. Aqui ela não entra, e a diferença tem um motivo.

Naquela calculadora você está comparando a sua vida com a de um CLT — e um CLT pode ser demitido sem justa causa. A multa é a indenização desse evento, então ela pertence ao lado de lá da comparação. Como PJ, você não se demite. Provisionar 3,2% por mês para uma indenização que ninguém vai te pagar é inflar a sua meta por um evento que não existe.

Falo disso porque a diferença entre 29,9% e 33,1% não é pequena, e porque meta inflada é a razão nº 1 de as pessoas abandonarem um plano na terceira semana.

O ritual: uma vez por mês, no dia em que o dinheiro entra

Nada disso funciona como decisão diária. Funciona como rotina, e a rotina é curta:

No dia em que o pagamento cai, antes de qualquer outra coisa, você separa. Primeiro as obrigações do mês (elas têm data). Depois os três fundos. O que sobrar é o Disponível — e o Disponível é o único número que você precisa olhar até o mês virar.

É contraintuitivo, mas é o que faz diferença: guardar antes de gastar transforma uma decisão de força de vontade, repetida trinta vezes por mês, numa decisão só. Quem tenta guardar o que sobra nunca guarda, porque nunca sobra.

Isso aqui é o segundo passo do Método Taxya — o Planejar: dar destino ao dinheiro antes que ele encontre um sozinho. Como PJ, esse passo deixa de ser opcional, porque a folha de pagamento que fazia isso por você não existe mais. Você virou o seu próprio RH — e o RH tinha um processo.

Como a Taxya faz essa conta por você

Eu construí isso na Taxya porque era a minha dor: eu também tenho CNPJ, e passei anos olhando o saldo da conta da empresa sem saber quanto daquilo já tinha destino.

No Planejamento PJ, você responde algumas perguntas — como a sua empresa é tributada, quanto fatura, quanto tira de pró-labore, quanto paga de contador — e a Taxya monta as duas camadas: as Obrigações PJ (o que vence todo mês) e as Reservas PJ (os três fundos, um por direito). Antes de sugerir, ela pergunta se o seu contrato já paga 13º ou férias remuneradas — se paga, sai da conta.

O que você vê depois é uma coisa só: quanto está Comprometido e quanto está Disponível. Os fundos ficam ao lado da sua reserva de emergência, cada um com o próprio ritmo e a própria barra — e, como eles não têm data de conclusão, a barra conta depósitos: “7 dos 12 depósitos de 2026”.

Não é automático no sentido de fazer nada por você: a Taxya calcula, organiza e lembra; separar o dinheiro continua sendo seu. Mas é a diferença entre saber o número e ter que redescobri-lo todo mês.

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Em resumo

Ser PJ não é pior nem melhor do que ser CLT — é mais trabalho de organização, e é um trabalho que ninguém te ensina porque o seu antigo RH fazia em silêncio.

O que muda de verdade quando você faz essa conta não é o saldo: é a leitura da sua própria vida financeira. Você para de olhar o faturamento e passa a olhar o Disponível. Para de ser pego por dezembro. E, quando aparecer a próxima proposta, você vai saber exatamente qual número comparar.

Comece pela ordem: primeiro o que tem multa, depois a reserva, depois férias, 13º e fundo de garantia. Se hoje só der pros dois primeiros, tudo bem — o plano é para doze meses, não para amanhã.

Em uma frase: como CLT, o 13º, as férias e o FGTS caíam na sua conta sem você fazer nada; como PJ, ninguém guarda por você — são 29,9% da sua renda que passaram a depender de uma rotina sua, e a rotina é uma só, uma vez por mês, no dia em que o dinheiro entra.

Perguntas frequentes

Quanto um PJ deve guardar por mês?

Para repor o que a CLT pagava, 29,9% da sua renda: 12,1% para as férias (o mês parado mais o terço constitucional) e 9,1% para o 13º, os dois divididos pelos 11 meses em que você fatura, mais 8,7% para o fundo de garantia (o seu patrão depositava 8% doze vezes; você deposita em onze). Isso é o que o RH separava por você e você nunca viu. Além disso ficam as obrigações que vencem todo mês — imposto, INSS e contador —, que não são reserva: são conta a pagar.

PJ tem direito a 13º e férias?

Por lei, não. O 13º, as férias com um terço e o FGTS são direitos do contrato CLT. Existem contratos PJ que pagam 13º ou férias remuneradas por acordo comercial — se o seu paga, esse valor você não precisa guardar. Se não paga (o caso da maioria), o dinheiro continua existindo: ele só deixou de ter alguém separando por você.

Qual o valor da reserva de emergência de quem é PJ?

Maior que a de um CLT, e a razão é objetiva: o CLT tem aviso prévio, FGTS e seguro-desemprego amortecendo a queda; o PJ não tem nenhuma dessas redes. Por isso a base recomendada é de 9 meses de gastos necessários para PJ e autônomos, contra 6 do CLT — e a conta é sempre sobre os seus gastos necessários, nunca sobre o seu faturamento.

Preciso guardar a multa de 40% do FGTS sendo PJ?

Não. A multa de 40% existe porque um empregado pode ser demitido sem justa causa — é uma indenização por um evento que só acontece no contrato CLT. Um PJ não se demite. Guardar 3,2% ao mês por causa dela infla a sua meta por um evento que não vai acontecer. (Em uma calculadora de CLT x PJ ela entra, porque ali você está comparando com alguém que pode ser demitido.)

Quanto do meu faturamento é realmente para viver?

Depende do seu regime e do seu contrato, mas o retrato costuma assustar. Num exemplo de R$ 10.000 faturados por mês, no Simples de 6%, com contador de R$ 600: R$ 1.508 são obrigações que vencem todo mês, R$ 2.542 são as reservas de férias, 13º e fundo de garantia — e sobram R$ 5.950 para viver, quase 60% do que entrou. O resto continua seu; só já tem destino.

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Escrito por
Marcelo Miguel

Criador da Taxya e usuário número zero. Construo a ferramenta que eu mesmo queria: uma que mostra o caminho pra ter paz com o dinheiro, não só os números. Conheça a história →

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